No clima de passagem, trancrevo aqui o belo discurso da Eligia, minha querida oradora, que foi proferido na cerimônia de formatura semana passada.
Senhor Diretor, Mestres e demais autoridades aqui presentes; senhores pais e convidados, boa noite. Caros colegas, formandos do curso de Jornalismo, antes de tudo quero agradecer-lhes a confiança depositada em mim para representá-los nesta noite tão importante para todos nós.
Entramos na PUC em 2006, um ano conturbado devido às diversas reestruturações pelas quais a Universidade passava naquele momento. Foi um ano de demissões, confusões e no meio do caos que se formava era possível perceber como se fosse um esboço, o perfil de meus colegas do horário noturno.
Havia a turma dos politizados que além de suas atividades do dia-a-dia, protestava, realizava reuniões. Queriam a todo custo fazer com que o restante da sala entendesse que era no mínimo contraditório estudar em uma Universidade com um claro viés esquerdista, com tanta história para contar e se manter neutro, ou pior, contrário às manifestações propostas.
Nelson Rodrigues já dizia, em uma de suas famosas frases de efeito: “Toda unanimidade é burra”. E como inteligentes e cheios de opinião que éramos e ainda somos não foi diferente em nossa sala. Uma parte dos alunos não queria se envolver com questões políticas ou administrativas da Universidade. Estavam ali para estudar e só tinham cabeça para isso. Seja por uma árdua rotina de trabalho, por querer aproveitar o dinheiro investido por seus pais em sua formação ou até mesmo para manter, ou conseguir uma bolsa de estudos. A realidade é que a sala parecia rachada, a impressão que se tinha era que chegaríamos ao fim do curso com algumas pessoas, para não dizer grande parte da sala, se odiando.
Os anos passaram com uma rapidez inexplicável e as coisas se desenharam de outra maneira. Neste tempo aprendemos a rir com as histórias dos outros; aprendemos a entender o momento por qual cada um passava; aprendemos a ser tolerantes com as diferenças; especialmente as de ponto-de-vista. Vocês, queridos pais e amigos, não imaginam como falam os alunos deste curso! Aprendemos o mais importante de tudo: a nos respeitar! Aprendemos, aprendemos e amadurecemos muito.
Quando falo deste amadurecimento não me refiro apenas a meus colegas que assim como eu, hoje vestem uma beca, mas aos cerca de sessenta alunos que participaram deste processo de maneira tão intensa como nós. Alguns deles estão na platéia e, eu como representante da sala, neste momento gostaria de fazer um apelo a esta Universidade. Compreendemos que a PUC passa por uma crise financeira há anos, mas também entendemos que tendo em vista que o TUCA pertence à Pontifícia, não haveria mal algum que esta Universidade custeasse as despesas com a colação de grau. [APLAUSOS]Outras instituições que além de não possuírem um teatro, e que tem mensalidades e receitas menores o fazem. Por que não aqui? Peço por favor, que não levem a mal este pedido, é que esta noite seria perfeita se todos os nossos companheiros pudessem compartilhar deste momento conosco não apenas como meros espectadores, mas como formandos que é o que eles realmente são. [MUITOS APLAUSOS]
Cada um de nós, jornalistas, assumimos, ao abraçar esta profissão, um compromisso não apenas conosco, mas principalmente com todos os cidadãos, independente de seu poder aquisitivo, raça, religião ou orientação sexual. Seria utópico pensar, porém, que mudaremos o mundo ou dizer que o dinheiro não é importante, mas é real e indispensável que coloquemos nossa dignidade em primeiro lugar, que sejamos norteados por princípios éticos e morais que não nos foram ensinados apenas durante nossa vida acadêmica, mas em nossos lares, com nossas famílias, que nunca esqueçamos que trabalhamos com vidas e que isso é de uma enorme responsabilidade.
A real função do jornalista é utilizar seu conhecimento, sua facilidade em dominar as palavras para descrever, mostrar situações que a sociedade muitas vezes fecha os olhos para não ver. Buscar uma sensibilidade acima da média, para com ela encontrar personagens que em sua particularidade representem uma maioria; dar voz a quem não tem vez, ser, por fim, instrumento do povo, nunca perdendo de vista, como bem escreveu outrora a poetisa Cora Coralina que “nada do que vivemos tem sentido se não tocamos o coração das pessoas”. O essencial é isto: tocar as pessoas, mas sempre perseguindo como grande objetivo informar a verdade. Não a minha ou a sua, mas aquela que oferece meios a quem a recebe de tirar suas próprias conclusões como ser pensante, e não como títere facilmente manipulado. Devemos propor o debate!
Gostaria de encerrar este discurso primeiramente com um pedido, a você, Vitão, que durante estes anos tornou nossa vida puquiana mais simples com seus “super spams do bem”. Não deixe que se percam os encontros da Confraria, da qual toda nossa sala faz parte. Sem medo de parecer piegas, foi ótimo e comovente perceber no último encontro do qual participei que o nó na garganta pelo fim do curso não era só meu, mas compartilhado por todos.
Quero citar também um trecho do livro “Eis o Homem”, de Nietzsche que diz assim:
“Sim, eu sei de onde sou vindo.
Insaciável como a chama
Que ao passo em que se inflama
Vai também se consumindo
O que toco é viva chama
O que deixo é só carvão
Tudo muda em minha mão
Com certeza sim, sou chama!”
Que sejamos assim, queridos colegas jornalistas: insaciáveis como a chama, deixando para trás apenas cinzas. Que tudo mude, para melhor, sempre, em nossas mãos!
Boa noite.
Acontece, se corre e se escorre, porém
