domingo, 29 de novembro de 2009

Abanda
www.myspace.com/aabanda
Aécio Diniz: contrabaixo e percussão
Hélio Filho: bateria e percussão
Samuel Macedo: guitarra, violão e percussão
Rivaldo Sousa: percussão

O grupo de música instrumental Abanda experimenta fusões rítmicas da cultura brasileira. Desenvolve trilhas sonoras: composições atreladas a registros audiovisuais produzidos pelos próprios integrantes. Em 2008 desenvolveram o espetáculo Trilhas U Som. No ano seguinte, concentraram-se nas manifestações culturais do Cariri cearense, no show A Rua do Vidéo. O nome é inspirado em endereço do Crato, cidade vizinha a Nova Olinda.
Os músicos já dividiram palco com artistas consagrados como Arnaldo Antunes, Lobão, Margareth Menezes e Gilberto Gil - muitas vezes no teatro da fundação em Nova Olinda, o Violeta Arraes. Apresentaram-se na Itália e na Alemanha.



No orkut: http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=95521182

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Genial



Meio-dia de sábado. Antes da última seção de Tom Zé – Astronauta Libertado na Mostra Internacional de Cinema, o diretor se dirige aos espectadores na sala. Igor Iglesias Gonzáles é o sujeito que tirava fotos ao lado do cartaz do filme na entrada. Em português, a fala não nega a nacionalidade espanhola. Diz que o fato do filme estar na mostra já é “um prêmio”. Pareceu-me bastante humildade. No final, no momento em que os letreiros subiam, eu tinha certeza: era bastante humildade.
Dá vontade de assistir repetidas vezes, só pra ficar naquela atmosfera que representa tão bem o músico, seu processo criativo e sua história. Sinceros, acima de tudo.

Tom Zé é genial. Daquela genialidade de peito aberto, sem querer ser culto. O filme absorve isso de tal maneira que acaba tendo as mesmas características. Não levou três anos de trabalho à toa.
O eixo principal do filme é uma oficina ministrada a músicos na Espanha. Tom Zé ensina como conquistar o público: “a música não pode ser uma pedrada, assim” (finge jogar uma pedra em alguém). “Tem que colocar todo amor”, completa, em outro trecho.
Podemos dizer que o diretor, estreante, aplicou a lição ao cinema. Prende a atenção, respeita o personagem e nos leva ao mundo dele.

TOM ZÉ astronauta libertado from Ígor Iglesias González on Vimeo.


Entre imagens de entrevistas e shows antigos, apresentações recentes, cenas no workshop espanhol, falas de Neusa, companheira fiel, críticos de música e Rita Lee, há as divertidas colocações do próprio:
“Ninguém na minha casa fazia música. Ouvia música pronta, no rádio. Resolvi ser mediador entre a música feita e a não feita.” Fazia reportagens musicadas, jungles.
Ele deixou a Bahia nos anos 1970 para ser cantor e compositor em São Paulo. “Vim gravar um disco, mas cheguei sem nenhuma música pronta.” Problema nenhum. Nasceu aí São São Paulo, uma das músicas mais emblemáticas da capital paulistana. O baiano encantara-se pela cidade? Ele desmistifica: “Apaixonado eu sou é por Irará”.
Participou do movimento tropicalista e depois dedicou-se a experimentações próprias. Inventou o sampler sem saber que ele estava sendo inventado em outro canto do mundo. Lançou diversos trabalhos de muita qualidade.

Já nos anos 1990, confinado ao ostracismo, o músico cansou de se apresentar para gatos pingados. Um dia chegou em casa com lágrimas e decidiu voltar para Irará. Foi quando David Byrne, músico escocês, descobriu o CD Estudando o Samba. Procurou Tom Zé e engatou seu estouro na Europa, que só depois se repetiu por aqui (triste, não?). Graças a esse trabalho Ígor Iglesias conheceu o artista. Sorte a nossa. Quer dizer, estou aqui fazendo propaganda, mas ainda não se sabe se o filme será comercializado ou entrará no circuito. O diretor disse que está tentando. E eu estou torcendo.

Sobre homens que deixam de ser burros

Minha gente, alguém acha normal que uma quantidade significativa de homens trabalhem como cavalos, mulas ou burros de carga, arrastando carroças pesadíssimas pelo trânsito da cidade? Pra começar, é vergonhoso que uma cidade desenvolvida como São Paulo não seja capaz de gerir o lixo que produz. Mas o fato é que isso criou um nicho de trabalho de pessoas que recolhem os resíduos que devem ser reaproveitados. Um trabalho digno, porém sub-humano, na frente dos nossos olhos em cada esquina. Eles são cerca de 800 mil no Brasil todo.

A novidade é que o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (sim, eles têm uma união nacional!) discutiu semana passada, num congresso (!) em São Paulo algumas medidas revolucionárias. O Parque Tecnológico da Usina de Itaipu está desenvolvendo tecnologias fantásticas especialmente para a categoria. Uma delas são veículos elétricos, simplesmente essenciais para o trabalho, e totalmente sustentáveis. A patente será do MNCR e o presidente do BNDES acenou o financiamento do tricículo por parte do banco. E mais: há um softaware livre que determina as melhores rotas para os trabalhadores, evita sobreposição de territórios e define pontos ideais para a implantação de novos galpões. O banco de dados será alimentado pelas cooperativas, via Internet.
É genial porque terá informações como número de catadores, situação socioeconômica do trabalhador, número de homens e mulheres por associação, quantos contribuem com a previdência, e quantos são alfabetizados. “Tudo isso irá contribuir para que a demanda dos catadores seja melhor discutida. E dados concretos favorecem articulação e reivindicação de políticas públicas”, disse o coordenador de comunicação do MNCR, Davi Amorim. Lula esteve na Expo Catadores 2009, em um emocionante discurso.




TUDO o que saiu nos jornais impressos sobre o assunto foi “Lula volta a criticar a imprensa e diz que povo pensa sozinho”, um texto irônico, rancoroso e pedante da Folha de São Paulo. Lula disse, na ocasião: “Vocês (jornalistas) têm aqui a oportunidade de fazer a matéria da vida de vocês. Se vocês esquecerem a pauta do editor e se embrenharem no meio desta gente; escolham um, qualquer um, para vocês conversarem sobre a vida deles, sobre o sonho deles(…)”. O jornalista ridiculariza a “aula de jornalismo” que o Presidente deu, ao mesmo tempo em que não coloca na matéria uma única fala de catador. Apenas citou o lançamento do triciclo elétrico. Sobre o Expo Catadores, o MNCR, o softaware, o envolvimento da Itaipu com o movimento, nenhuma palavra.

Quem quiser saber um pouco sobre as novidades do MNCR, pode ver no Blog do Nassif, em República dos Catadores.

Tá lá:
A Lei Nacional de Saneamento Básico, nº 11.445/07, contém as diretrizes gerais que permitem a contratação direta desses trabalhadores pelos municípios, “mas muitas vezes isso não acontece com a alegação de que falta organização e por isso vulnerabilidade na prestação desse serviço”, explica Jair Kotz, superintendente de Gestão Ambiental da Itaipu. Por isso, dentre os objetivos do programa está o de melhorar a parceria entre municípios e cooperativas para que os catadores participem efetivamente da gestão dos resíduos.

É ou não um assunto para o espaço público?
Por essas e por outras, os jornalistas foram vaiados no evento. Lula tinha razão quando disse: “E aí vocês vão compreender porque a figura do chamado formador de opinião pública, que antes decidia as coisas nesse país, já não decide mais. É porque esse povo já não quer mais intermediário, esse povo tem pensamento próprio. E o que é mais importante, esse povo gente, adquiriu o gosto de uma palavra chamada cidadania”

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Um poema chamado Mariana

Esse fiz pra minha irmã dois anos atrás. Continua valendo...



Meu sorriso, se estou triste
Minha bronca, se estou chata
Tudo que faço, ela assiste
Os meus nós, é quem desata
Meu oposto, a vida insiste
Meu tesouro, assim na lata

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Poesia no São Franciso



Cantador dá show no palanque de Lula e Dilma no São Franciso. Lindo demais, não?

“Não sou um Manuel Bandeira
Drumond, nem Jorge de Lima
Não espereis obra prima
Deste matuto plebeu
Eles cantam suas praias
Palácios de porcelana
Eu canto a roça, a cabana
Canto o sertão que ele é meu"

O cantador é Antônio Marinho, grande cantador de Pernambuco, filho de outro grande, o Águia do Sertão.

Escrevi uma vez sobre a cidade desses cantadores, no Vale do Pajeú. São José do Egito é a "capital do repente". Quando ela completou cem anos, neste ano, publiquei Há cem anos e de repente no blog do Almanaque Brasil. Clique para ver.

Uma vez, Antônio Marinho volta a São José depois de uma viagem. Um amigo pergunta na cantoria como fora a andança. Antônio responde: “Eu só fui a Espinharas/ Porque a precisão obriga/ Mas fui com muita saudade/ Daquela nossa cantiga /Minha saudade era tanta…” Neste instante, Marinho foi obrigado a parar para tossir. Depois concluiu: “…Que a tosse não quer que eu diga.”

domingo, 18 de outubro de 2009

"Eu amo meu Brasil, queria jogar lá"

Bastou o Santos dar espaço para que as meninas do futebol aparecessem. O time muito bem estruturado das Sereias mostrou como o futebol feminino pode sim chamar público para o estádio, ocupar lugar na imprensa e se viabilizar.

Melhor jogadora do mundo há três anos, segundo a FIFA, Marta atua no exterior desde 2004 para poder viver do esporte. No país do futebol, quem diria, ela não tinha vez. No ano passado defendia o Umea IK, na Suíça, quando declarou à revista Marie Claire: “aqui a gente tem apoio da mídia, joga num campeonato bem disputado. Se existisse o mesmo trabalho no Brasil, ia correndo. Eu amo o meu Brasil, queria jogar lá, estar perto das pessoas que amo. Mas vivo do futebol e no Brasil o futebol feminino não tem estrutura”.

Na época ela disse que mandava mil reais para a família, todo mês. “A casa em que minha mãe mora é a minha. Foi a única coisa que comprei até agora.”

Se essa é a situação da melhor do mundo, fica difícil imaginar como vivem as outras mulheres que se dedicam ao futebol.

Agora Marta veste a camisa do Los Angeles Sol, mas passou três meses emprestada à equipe santista. Quinze mil pessoas viram o time vencer a Libertadores hoje, de goleada.

Fica a esperança de que a campanha das Sereias nessa temporada inspire os clubes a dar atenção para as mulheres.E que um dia Marta possa, definitivamente, viver da sua arte no Brasil.

Outros trechos da entrevista para a Marie Claire:

MC: De quem depende a valorização da mulher no futebol: torcida, patrocínio, Governo?
M: De tudo isso. Igualar o futebol masculino e o feminino é duro, mas seria suficiente haver um padrão legal para que as meninas pudessem viver do futebol com dignidade. Algumas meninas, que jogam até pela seleção, têm que trabalhar e fazer mil e uma coisas ao mesmo tempo para se sustentar.

MC: Você acha que está nas sua mãos fazer algo para o futebol feminino?
M: Talvez nos meus pés [ri]? Mas não depende apenas de mim. Seria ótimo se empresas patrocinassem e ajudassem a manter uma liga no Brasil. É necessária a união de Governo, CBF, clubes grandes que pagam milhões por jogadores, mas ignoram o futebol feminino. Eu acho que 1% de cada salário de um jogador do time masculino paga o salário de quatro ou cinco jogadoras. De verdade, não é necessário muito para fazer o futebol feminino crescer.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Por dentro e por fora

Mês passado estive no interior do Ceará por causa do meu trabalho de conclusão de curso, que é sobre a bandinha de lata da Fundação Casa Grande, em Nova Olinda, cidadezinha do Cariri. Para entrevistar as famílias, pude entrar na casa de várias delas. Foi a melhor parte. Paulistana que sou, imaginava que pedir para que pais e filhos se atrasassem, saíssem do trabalho ou prolongassem o horário de almoço, se reunissem em casa e gastassem tempo do dia abrindo sua vida para três desconhecidas, exigiria um bom jogo de cintura. Que nada. Fizeram isso com toda boa vontade do mundo, e ainda insistiram para comermos e bebermos do melhor em cada casa, da mais elaborada à mais simples.
Além da recepção, o que me chamou muito a atenção foram as cores dos lares. Mesmo os com poucos acabamentos e móveis, ostentavam paredes coloridas: verde e laranja, principalmente. Não precisa de muito dinheiro para pintar a casa, e pintar de branco é o mesmo preço da pintura caiada. É questão de costume – um costume que não temos em São Paulo – e talvez eles nem entendessem porque eu elogiava esse detalhe comum. Me encantei mais ainda quando, na parede de uma delas, vi o calendário de Patrick Bogner pendurado. O calendário estava ali porque, como eu, o fotógrafo francês também se hospedou numa das casas da Cooperativa de Pais e Amigos da Fundação Casa Grande para fazer seus cliques pelo Cariri.



Bogner capturou exatamente o que eu estava pensando. A riqueza cromática dos interiores de um lugar pobre. “A poesia não consola da miséria, mas pode ser um marco no caminho da libertação.” A frase é da arquiteta Lina Bo Bardi sobre a obra de Anna Mariani. Anna era fotógrafa como Patrick. Se o francês passou meses registrando interior de residências, a baiana passou anos clicando fachadas, muito antes. O livro Pinturas e Platibandas (1987) é inédito em focar e mapear a arte dos construtores anônimos e sem formação do sertão, com obras semelhantes ora à art déco, ora à arte moderna. Depois de rodar a Europa dançando balé, Anna foi fotografar os cenários cruzados por Antônio Conselheiro, quando enveredou para as fachadas.


"Em Santo Amaro, onde nasci, no Recôncavo Baiano, as pessoas pintam suas casas a cada fevereiro para as festas da padroeira: é como comprar um vestido novo.A cidade fi ca endomingada, como se fosse um cenário de teatro ingênuo, com todas as casas recém-pintadas. É simples: é a alegria de viver, a vontade de ser mais bonito.Aos olhos do próximo, aos olhos de Deus."
Caetano Veloso

Acho uma pena que as lindas fachadas flagradas por Anna estejam em desuso. A Fundação Casa Grande conseguiu apoio de uma marca de tinta, realizou estudos com os meninos de lá e eles coloriram uma rua inteira com os modelos pesquisados pela baiana. Não durou. Pouco a pouco, as pessoas foram cobrindo a pintura da frente das casas com azulejos de cerâmica, desses que usamos em cozinha ou banheiro. Por lá, isso é sinal de luxo e chiqueza, apesar de feio demais e sem conexão com a origem da região. Mas eu queria é que as construções fossem tão charmosas por fora como são por dentro. Na verdade, queria que essas pessoas queridas, além de poesia, pudessem ter por dentro também conforto – tanto na casa como na vida. E que, à medida que melhorássemos de vida – aí também vale pra mim ou para você –, não perdêssemos nossa essência e poesia.