sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Nota

Este post é só para frisar que estou trocando o "quase" pelo "enfim" no meu perfil aqui no canto superior esquerdo - apesar de ainda não ter me acostumado muito com a ideia.
No clima de passagem, trancrevo aqui o belo discurso da Eligia, minha querida oradora, que foi proferido na cerimônia de formatura semana passada.



Senhor Diretor, Mestres e demais autoridades aqui presentes; senhores pais e convidados, boa noite. Caros colegas, formandos do curso de Jornalismo, antes de tudo quero agradecer-lhes a confiança depositada em mim para representá-los nesta noite tão importante para todos nós.


Entramos na PUC em 2006, um ano conturbado devido às diversas reestruturações pelas quais a Universidade passava naquele momento. Foi um ano de demissões, confusões e no meio do caos que se formava era possível perceber como se fosse um esboço, o perfil de meus colegas do horário noturno.
Havia a turma dos politizados que além de suas atividades do dia-a-dia, protestava, realizava reuniões. Queriam a todo custo fazer com que o restante da sala entendesse que era no mínimo contraditório estudar em uma Universidade com um claro viés esquerdista, com tanta história para contar e se manter neutro, ou pior, contrário às manifestações propostas.
Nelson Rodrigues já dizia, em uma de suas famosas frases de efeito: “Toda unanimidade é burra”. E como inteligentes e cheios de opinião que éramos e ainda somos não foi diferente em nossa sala. Uma parte dos alunos não queria se envolver com questões políticas ou administrativas da Universidade. Estavam ali para estudar e só tinham cabeça para isso. Seja por uma árdua rotina de trabalho, por querer aproveitar o dinheiro investido por seus pais em sua formação ou até mesmo para manter, ou conseguir uma bolsa de estudos. A realidade é que a sala parecia rachada, a impressão que se tinha era que chegaríamos ao fim do curso com algumas pessoas, para não dizer grande parte da sala, se odiando.
Os anos passaram com uma rapidez inexplicável e as coisas se desenharam de outra maneira. Neste tempo aprendemos a rir com as histórias dos outros; aprendemos a entender o momento por qual cada um passava; aprendemos a ser tolerantes com as diferenças; especialmente as de ponto-de-vista. Vocês, queridos pais e amigos, não imaginam como falam os alunos deste curso! Aprendemos o mais importante de tudo: a nos respeitar! Aprendemos, aprendemos e amadurecemos muito.


Quando falo deste amadurecimento não me refiro apenas a meus colegas que assim como eu, hoje vestem uma beca, mas aos cerca de sessenta alunos que participaram deste processo de maneira tão intensa como nós. Alguns deles estão na platéia e, eu como representante da sala, neste momento gostaria de fazer um apelo a esta Universidade. Compreendemos que a PUC passa por uma crise financeira há anos, mas também entendemos que tendo em vista que o TUCA pertence à Pontifícia, não haveria mal algum que esta Universidade custeasse as despesas com a colação de grau. [APLAUSOS]Outras instituições que além de não possuírem um teatro, e que tem mensalidades e receitas menores o fazem. Por que não aqui? Peço por favor, que não levem a mal este pedido, é que esta noite seria perfeita se todos os nossos companheiros pudessem compartilhar deste momento conosco não apenas como meros espectadores, mas como formandos que é o que eles realmente são. [MUITOS APLAUSOS]

Cada um de nós, jornalistas, assumimos, ao abraçar esta profissão, um compromisso não apenas conosco, mas principalmente com todos os cidadãos, independente de seu poder aquisitivo, raça, religião ou orientação sexual. Seria utópico pensar, porém, que mudaremos o mundo ou dizer que o dinheiro não é importante, mas é real e indispensável que coloquemos nossa dignidade em primeiro lugar, que sejamos norteados por princípios éticos e morais que não nos foram ensinados apenas durante nossa vida acadêmica, mas em nossos lares, com nossas famílias, que nunca esqueçamos que trabalhamos com vidas e que isso é de uma enorme responsabilidade.
A real função do jornalista é utilizar seu conhecimento, sua facilidade em dominar as palavras para descrever, mostrar situações que a sociedade muitas vezes fecha os olhos para não ver. Buscar uma sensibilidade acima da média, para com ela encontrar personagens que em sua particularidade representem uma maioria; dar voz a quem não tem vez, ser, por fim, instrumento do povo, nunca perdendo de vista, como bem escreveu outrora a poetisa Cora Coralina que “nada do que vivemos tem sentido se não tocamos o coração das pessoas”. O essencial é isto: tocar as pessoas, mas sempre perseguindo como grande objetivo informar a verdade. Não a minha ou a sua, mas aquela que oferece meios a quem a recebe de tirar suas próprias conclusões como ser pensante, e não como títere facilmente manipulado. Devemos propor o debate!


Gostaria de encerrar este discurso primeiramente com um pedido, a você, Vitão, que durante estes anos tornou nossa vida puquiana mais simples com seus “super spams do bem”. Não deixe que se percam os encontros da Confraria, da qual toda nossa sala faz parte. Sem medo de parecer piegas, foi ótimo e comovente perceber no último encontro do qual participei que o nó na garganta pelo fim do curso não era só meu, mas compartilhado por todos.


Quero citar também um trecho do livro “Eis o Homem”, de Nietzsche que diz assim:
“Sim, eu sei de onde sou vindo.
Insaciável como a chama
Que ao passo em que se inflama
Vai também se consumindo
O que toco é viva chama
O que deixo é só carvão
Tudo muda em minha mão
Com certeza sim, sou chama!”

Que sejamos assim, queridos colegas jornalistas: insaciáveis como a chama, deixando para trás apenas cinzas. Que tudo mude, para melhor, sempre, em nossas mãos!


Boa noite.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A mosca e o mosquito

A lenda:



As lendinhas (Os Cabinha):

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Poesia de férias

Acontece, se corre e se escorre, porém
Não esquece de vagar devagar e nem
De amar, derramar o pensar além

Não esquece
Por favor, não esquece
Que o mar está lá
Queima e estala, eu juro
Instala o mundo mais puro
No peito de quem olhar

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Genial



Meio-dia de sábado. Antes da última seção de Tom Zé – Astronauta Libertado na Mostra Internacional de Cinema, o diretor se dirige aos espectadores na sala. Igor Iglesias Gonzáles é o sujeito que tirava fotos ao lado do cartaz do filme na entrada. Em português, a fala não nega a nacionalidade espanhola. Diz que o fato do filme estar na mostra já é “um prêmio”. Pareceu-me bastante humildade. No final, no momento em que os letreiros subiam, eu tinha certeza: era bastante humildade.
Dá vontade de assistir repetidas vezes, só pra ficar naquela atmosfera que representa tão bem o músico, seu processo criativo e sua história. Sinceros, acima de tudo.

Tom Zé é genial. Daquela genialidade de peito aberto, sem querer ser culto. O filme absorve isso de tal maneira que acaba tendo as mesmas características. Não levou três anos de trabalho à toa.
O eixo principal do filme é uma oficina ministrada a músicos na Espanha. Tom Zé ensina como conquistar o público: “a música não pode ser uma pedrada, assim” (finge jogar uma pedra em alguém). “Tem que colocar todo amor”, completa, em outro trecho.
Podemos dizer que o diretor, estreante, aplicou a lição ao cinema. Prende a atenção, respeita o personagem e nos leva ao mundo dele.

TOM ZÉ astronauta libertado from Ígor Iglesias González on Vimeo.


Entre imagens de entrevistas e shows antigos, apresentações recentes, cenas no workshop espanhol, falas de Neusa, companheira fiel, críticos de música e Rita Lee, há as divertidas colocações do próprio:
“Ninguém na minha casa fazia música. Ouvia música pronta, no rádio. Resolvi ser mediador entre a música feita e a não feita.” Fazia reportagens musicadas, jungles.
Ele deixou a Bahia nos anos 1970 para ser cantor e compositor em São Paulo. “Vim gravar um disco, mas cheguei sem nenhuma música pronta.” Problema nenhum. Nasceu aí São São Paulo, uma das músicas mais emblemáticas da capital paulistana. O baiano encantara-se pela cidade? Ele desmistifica: “Apaixonado eu sou é por Irará”.
Participou do movimento tropicalista e depois dedicou-se a experimentações próprias. Inventou o sampler sem saber que ele estava sendo inventado em outro canto do mundo. Lançou diversos trabalhos de muita qualidade.

Já nos anos 1990, confinado ao ostracismo, o músico cansou de se apresentar para gatos pingados. Um dia chegou em casa com lágrimas e decidiu voltar para Irará. Foi quando David Byrne, músico escocês, descobriu o CD Estudando o Samba. Procurou Tom Zé e engatou seu estouro na Europa, que só depois se repetiu por aqui (triste, não?). Graças a esse trabalho Ígor Iglesias conheceu o artista. Sorte a nossa. Quer dizer, estou aqui fazendo propaganda, mas ainda não se sabe se o filme será comercializado ou entrará no circuito. O diretor disse que está tentando. E eu estou torcendo.

Sobre homens que deixam de ser burros

Minha gente, alguém acha normal que uma quantidade significativa de homens trabalhem como cavalos, mulas ou burros de carga, arrastando carroças pesadíssimas pelo trânsito da cidade? Pra começar, é vergonhoso que uma cidade desenvolvida como São Paulo não seja capaz de gerir o lixo que produz. Mas o fato é que isso criou um nicho de trabalho de pessoas que recolhem os resíduos que devem ser reaproveitados. Um trabalho digno, porém sub-humano, na frente dos nossos olhos em cada esquina. Eles são cerca de 800 mil no Brasil todo.

A novidade é que o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (sim, eles têm uma união nacional!) discutiu semana passada, num congresso (!) em São Paulo algumas medidas revolucionárias. O Parque Tecnológico da Usina de Itaipu está desenvolvendo tecnologias fantásticas especialmente para a categoria. Uma delas são veículos elétricos, simplesmente essenciais para o trabalho, e totalmente sustentáveis. A patente será do MNCR e o presidente do BNDES acenou o financiamento do tricículo por parte do banco. E mais: há um softaware livre que determina as melhores rotas para os trabalhadores, evita sobreposição de territórios e define pontos ideais para a implantação de novos galpões. O banco de dados será alimentado pelas cooperativas, via Internet.
É genial porque terá informações como número de catadores, situação socioeconômica do trabalhador, número de homens e mulheres por associação, quantos contribuem com a previdência, e quantos são alfabetizados. “Tudo isso irá contribuir para que a demanda dos catadores seja melhor discutida. E dados concretos favorecem articulação e reivindicação de políticas públicas”, disse o coordenador de comunicação do MNCR, Davi Amorim. Lula esteve na Expo Catadores 2009, em um emocionante discurso.




TUDO o que saiu nos jornais impressos sobre o assunto foi “Lula volta a criticar a imprensa e diz que povo pensa sozinho”, um texto irônico, rancoroso e pedante da Folha de São Paulo. Lula disse, na ocasião: “Vocês (jornalistas) têm aqui a oportunidade de fazer a matéria da vida de vocês. Se vocês esquecerem a pauta do editor e se embrenharem no meio desta gente; escolham um, qualquer um, para vocês conversarem sobre a vida deles, sobre o sonho deles(…)”. O jornalista ridiculariza a “aula de jornalismo” que o Presidente deu, ao mesmo tempo em que não coloca na matéria uma única fala de catador. Apenas citou o lançamento do triciclo elétrico. Sobre o Expo Catadores, o MNCR, o softaware, o envolvimento da Itaipu com o movimento, nenhuma palavra.

Quem quiser saber um pouco sobre as novidades do MNCR, pode ver no Blog do Nassif, em República dos Catadores.

Tá lá:
A Lei Nacional de Saneamento Básico, nº 11.445/07, contém as diretrizes gerais que permitem a contratação direta desses trabalhadores pelos municípios, “mas muitas vezes isso não acontece com a alegação de que falta organização e por isso vulnerabilidade na prestação desse serviço”, explica Jair Kotz, superintendente de Gestão Ambiental da Itaipu. Por isso, dentre os objetivos do programa está o de melhorar a parceria entre municípios e cooperativas para que os catadores participem efetivamente da gestão dos resíduos.

É ou não um assunto para o espaço público?
Por essas e por outras, os jornalistas foram vaiados no evento. Lula tinha razão quando disse: “E aí vocês vão compreender porque a figura do chamado formador de opinião pública, que antes decidia as coisas nesse país, já não decide mais. É porque esse povo já não quer mais intermediário, esse povo tem pensamento próprio. E o que é mais importante, esse povo gente, adquiriu o gosto de uma palavra chamada cidadania”

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Um poema chamado Mariana

Esse fiz pra minha irmã dois anos atrás. Continua valendo...



Meu sorriso, se estou triste
Minha bronca, se estou chata
Tudo que faço, ela assiste
Os meus nós, é quem desata
Meu oposto, a vida insiste
Meu tesouro, assim na lata

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Poesia no São Franciso



Cantador dá show no palanque de Lula e Dilma no São Franciso. Lindo demais, não?

“Não sou um Manuel Bandeira
Drumond, nem Jorge de Lima
Não espereis obra prima
Deste matuto plebeu
Eles cantam suas praias
Palácios de porcelana
Eu canto a roça, a cabana
Canto o sertão que ele é meu"

O cantador é Antônio Marinho, grande cantador de Pernambuco, filho de outro grande, o Águia do Sertão.

Escrevi uma vez sobre a cidade desses cantadores, no Vale do Pajeú. São José do Egito é a "capital do repente". Quando ela completou cem anos, neste ano, publiquei Há cem anos e de repente no blog do Almanaque Brasil. Clique para ver.

Uma vez, Antônio Marinho volta a São José depois de uma viagem. Um amigo pergunta na cantoria como fora a andança. Antônio responde: “Eu só fui a Espinharas/ Porque a precisão obriga/ Mas fui com muita saudade/ Daquela nossa cantiga /Minha saudade era tanta…” Neste instante, Marinho foi obrigado a parar para tossir. Depois concluiu: “…Que a tosse não quer que eu diga.”