domingo, 4 de julho de 2010

Quebra-cabeça



Lembrança viva. Foi ao som de Alceu Valença numa topique (ou perua, aqui pro sul) que conheci o Cariri. Maio, 2009. Tinha ido cobrir a 1° Mostra Cariri de Países de Língua Portuguesa, mas também pude conhecer várias cidades e grupos de “brincadeiras”: reisado, maneiro-pau, jongo, banda cabaçal. Quando a topique recortou a Chapada do Araripe rumo a São Paulo, era inevitável, por mais clichê que possa parecer, pensar em Clara Nunes, no último e em tantos paus-de-arara fazendo o mesmo percurso. Melancolia pura.

Acontece que a história só começava. Meu trabalho de conclusão de curso na faculdade já estava planejado para ser feito no Cariri, por uma grande coincidência. Antes de voltar para aquelas bandas, porém, recebi no serviço a incumbência de escrever uma matéria sobre o Instituto Brincante, de Antônio Nóbrega. Seis páginas sobre como as manifestações tradicionais do nosso povo podem ser reestruturadas no cotidiano moderno, servindo à arte e à qualidade de vida. E, sem que eu me desse conta, o mundo daqui e o mundo de lá se uniram para sempre.

Depois de uma noite sem dormir para terminar o texto, embarquei para mais uma dose de cultura sertaneja na nascente. Na volta trouxe o presente de um querido desconhecido: um CD com 250 músicas de Luiz Gonzaga, filho da terra. Inspiração para uma matéria no Almanaque Brasil, onde eu trabalho, sobre como o brasileiro lida com os mistérios do tempo, do sol e da chuva.

Nessa época Mariana, desde o começo guia e mestra de Cariri, me chama para ir ao cinema. Nenhuma das duas sabia: para reconstruir a trajetória de Humberto Teixeira, um dos maiores parceiros de Gonzagão, O Homem que Engarrafava Nuvens mostrava todas as manifestações caririenses e narrava a história do baião. Assunto pra mais uma matéria no Almanaque. Quebrei a cabeça com isso e assim que acabei fui passear com a Mariana no Rio de Janeiro, sem querer nem ouvir falar no assunto. Só que um amigo dela, do Cariri, estava fazendo um show e lá fui eu arrastada. Pazes feitas com o forró.

Alceu Valença cantou de novo, anunciando o fim de um ciclo que durou exatamente um ano. Talvez a providência divina, talvez o acaso. Alguém brinca de quebra-cabeça com nossas vidas. Foi dia desses, no Brincante, que percebi. Com um pouquinho de sertão em mim, já tinha mais uma imagem montada na minha experiência nesse mundo.

4 comentários:

irmã de neon disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
irmã de neon disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Geraldo Junior disse...

Belas palavras aqui, menina! Segui o mesmo trajeto entre saudade e reencontro! O Tempo e o Vento! Folhas voando no Calendário!

Nati Pesciotta disse...

É isso. Cada um tem sua história de caminhos ziguezagueantes... que às vezes se cruzam! Obrigada pela visita!