
À primeira vista, parece que falta uma placa. Na Praça Pereira Coutinho há avisos que mandam cuidar bem dos brinquedos instalados, recolher as fezes dos cães, não deixá-los entrar no “playground” e, ainda, proíbem alimentar pombos e gatos. Nada a respeito de vestuário. Porém, quem passa por ali pode ter a impressão que vestir branco é uma regra velada.
Aproximando-se um pouco até fica possível ver peças de roupas coloridas. Bem pequenas, proporcionais aos seus donos: bebês e crianças, em geral até 5 anos de idade. No miolo da Vila Nova Conceição, nobre bairro residencial de São Paulo, o exército branco é constituído por empregadas domésticas e babás, muitas babás – em sua maioria negras.
Ao longo de dois quarteirões, corredores compridos passam por canteiros e servem de trilha para carrinhos de bebês. Entre os maiorzinhos, a moda são as miniaturas de carros de verdade, com direção e câmbio falsos, levados pelas empurradoras. O canto do parquinho com chão de areia, o tal “playground”, é a área mais populosa.
Em alguns casos, as babás dormem no trabalho, em outros cumprem oito horas diárias, por cerca de mil reais por mês. Joice Fonseca, 25 anos, vai e volta. Seu filho Pedro, de 3, fica com a irmã desempregada. Onde ela mora, “perto do Terminal Santo Amaro” não tem uma praça como essa. “As crianças brincam na porta de casa, mesmo”, ela conta.
Nas tardes de fim de semana, a composição do cenário na Pereira Coutinho é outra. As empregadas são pontos brancos carregando sacolas e carrinhos entre o listrado das camisas Pólo dos pais e os cinzas, cremes e pretos das malhas das mães. Os meninos estão de mini-jeans, enquanto as meninas exibem meia-calças, laços, e o que mais for da última coleção infantil da Zara.
É forte o cheiro de café da Doceria Cristallo, onde as mesinhas externas estão todas ocupadas. Do outro lado, a Mercearia A Pracinha também está cheia, apesar do abaixo-assinado dos moradores da região contra o estabelecimento. Dizem que provoca muito barulho e movimento. Além desses dois, não há mais nada comercial na praça. Apenas prédios de moradia, padrão AAA. O metro quadrado do endereço, há alguns quarteirões do Parque Ibirapuera, é um dos mais caros da cidade - custa até 14 mil reais. Entre os moradores, Pedro Moreira Salles, presidente do Unibanco, e Roberto Setúbal, do Itaú.
Se é sábado ou domingo, formam-se grupos de adultos em volta do alambrado do playground para comentar mudanças de casas, viagens planejadas, o dia-a-dia, costumes dos filhos. Que brincam no parque.
“Cida, vem ver meu castelo!”, chama a garota. O pai, como não basta ser pai, quer participar, apresenta-se: “Deixa eu ver”. “Aqui, aqui”, aponta ela. “Nossa, parece mais um bolo”. Outros progenitores ocupam-se em empurrar o balanço, apostar corrida, jogar bola ou explicar que não vão comprar a revista com dinossauros de brinquedo na banca de jornal, que fica no centro da praça.
Segunda-feira, tudo volta ao normal – o exército branco volta a cumprir sozinho a missão de cuidar da nova geração.
OBS: O texto é de 2008. Diria que tudo continua, se não igual, quase: Unibanco e Itaú agora são um banco só.
1 comentários:
rs... gostei! =]
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