Ou chivitos, medialunas e paráguas: quatro dias em Montevidéu
A cidade já estava quase abandonada naquela véspera de feriado prolongado. A velha pizzaria em frente ao ponto de ônibus era plateia para ver a pressa das últimas pessoas indo embora para qualquer lugar longe do centro. “Entonces yo quiero um”, arrisquei em mau espanhol, depois de não compreender a explicação do atencioso garçom, o primeiro a nos atender em Montevidéu. Eu sabia que chivito era prato típico da capital uruguaia, talvez tanto quanto empanadas na argentina, mas estava curiosa para ver no que consistia. Como tínhamos ao menos a certeza de que a base era carne – principal atração do País, dizem uns, quase sarcasticamente, sem perder a razão com o argumento de que no Uruguai a população bovina é maior do que a humana –, o acompanhante vegetariano também pediu ajuda para o menu. “No como carne, peces y pollo”, avisou em espanhol bem mais caprichado que o meu. Come queijo? Sim, comia. Ovo? Também. Batata? Claro que sim. O garçom sorriu e afirmou que traria o prato certeiro.
Poucos goles de Patrícia e alguns dribles do Santástico pela Libertadores depois, voltava. Então o tal do chivito tratava-se de um verdadeiro X-tudo. Descobriria depois que as chiviterias têm os ingredientes à mostra para serem acrescentados à receita, como um Subway, mas mais autêntico – arriscaria dizer que são bastante anteriores à empresa americana.
Como fazer um sanduíche parecer pérola da alta gastronomia? Chame-o de chivito. A verdade é que os uruguaios são mesmo bons para nomes. Qualquer comida meia-boca fica mais estilosa. Medialuna para croissant, panceta para bacon, frankfurtiana para cachorro quente, jamón para presunto. O amigo vegetariano chegou a sugerir que não aceitar as palavras estrangeiras – sandwich, bacon, croissant, hot dog – e ter o próprio vocabulário é um sinal de personalidade do País. Dou razão.
O espanhol é mesmo a melhor das línguas, depois do português. Não dá para não gostar de uma pomba quando ela se chama “paloma”: “Palomita blanca, o que estás haciendo?”. As uruguaias, já naturalmente hermosas, em dia de chuva andam elegantes com seus “paráguas”. Até um eterno problema, a falta de sinônimo para a tenebrosa palavra “balada”, lá está resolvido. Uma balada (o vegetariano arrepia) é um boliche.
Por falar nele, o tal prato personalizado sem carne, peces e pollo que encomendou na pizzaria ganhou lugar de destaque na lista de combinações mais surreais que já vimos: generosa camada de batatas fritas coberta por um grande ovo frito, tudo gratinado com muito queijo – para se comer com garfo e faca, claro.
Esse primeiro garçom, realmente interesado em agradar, não fugia à regra do povo que encontramos no Uruguai. Chega ao ponto da vendedora de uma loja indicar a concorrente e ainda desenhar um mapa de como chegar lá. Sem bajulação, interesse ou subordinação. Um choque quando se troca Patrícia por Quilmes. Logo depois do rio da Prata, em Buenos Aires um muxoxo de desdém paira no ar.
Por outro lado, certamente (baseada em uma pesquisa por amostragem), uma festa que junte todos os taxistas de Montevidéu incluirá as melhores e mais agradáveis pessoas do mundo – no que pese a má fama da classe. Por eles fomos alegremente conduzidos pelas ruas e cultura da cidade. Todos explicavam a mesma coisa. Por causa do feriado, “la gente se fue a la playa”.

Vi uma capital ainda menos povoada que o normal, apesar de Montevidéu concentrar quase metade da população do País. A começar pela decadência visível no centro antigo, a antiga Suíça latina realmente já não é mais a mesma. Um estranho fenômeno desmorona a pirâmide etária do país: os jovens procuram perspectivas na Argentina ou na Espanha, principalmente, e são escassos por lá. Porém tudo se mantém belo e organizado. Prédios espaçosos, ruas limpas, arquitetura harmônica. Parece apenas que a força do capialismo não chegou ainda. Não conheço tantos lugares, mas Montevidéu tem a aparência mais comunista que já conheci. As ramblas – calçadões à beira das praias de rio – nunca viram um quiosque, muito menos um quiosque patrocinado. Em todo canto, quase não há menção a marcas e consumo.
Os melhores lugares para se andar na cidade são o Mercado do Porto – extremamente aconchegante –, o bairro de Pocitos – com bares, restaurantes e até cassino –, e, com sorte, o estádio Centenário – construído para a primeira Copa do Mundo –, em dia de jogo. A avenida 18 de Julho, principal veia do centro, é dos mais bacanas para conhecer a cidade e fazer compras. Só não queira passear por ela em dia de Páscoa: não encontrará nem banca de jornal aberta, nem mesmo um ou outro uruguaio desavisado. Nesse caso, opte pelo zoológico em Pocitos. Ver os animais pode ser muito divertido se uma criança ao seu lado exclama para a mãe, com voz doce e pausada: “Que precioso”. Para ser melhor, só se o espanhol tivesse sido mais generoso com os bichos. Assumo que fiquei meio desapontada com o simples jirafa.
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