sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Num cineminha no centro

Arrigo Barnabé coloca Lupícínio Rodrigues na saudosa maloca

Cine Áurea preparado para receber Arrigo.

Adoniran Barbosa que me perdoe. Na rua Aurora, 625, ninguém sente muita saudade da Saudosa Maloca. O endereço do casarão prezado pelo sambista hoje dá lugar ao Cine Áurea, um cinema pornô da melhor qualidade. E qualidade, no caso, significa pé direito alto meio caindo aos pedaços, poltronas desconfortáveis de couro quase rasgado, iluminação parca.

Ao entrar no Cine Áurea naquele dia e olhar em volta não seria exagero supor uma estatística: cerca de 90% das pessoas no saguão moravam em algum predinho antigo da Zona Oeste da cidade. A instituição “predinho antigo” é pura fofura. Uma construção de arquitetura meiga, avarandada, com pastilhas antigas. Nem cano quebrado, infiltração e demais mazelas do tempo fazem com que o metro quadrado em um desses não custe uma fortuna. Vale o estilo dos moradores, quase sempre com profissão descolada no meio cultural.

Bem, quando os frequentadores de filmes pornôs no centro dão lugar aos moradores de predinhos antigos, o Cine Áurea é puro estilo. E deve-se reconhecer. O produtor cultural que escolheu o espaço não podia ter acertado mais. O lugar era perfeito para o evento. O Canal Brasil lançava DVD em que Arrigo Barnabé canta Lupicínio Rodrigues.

Luz de velas davam um clima de elegância sinistra, enquanto o patrocínio de uma cerveja gaúcha ainda não lançada no mercado animava o assunto. Lupícinio não imaginaria um local diferente se pudesse opinar na versão de Arrigo à sua obra. Versão desnecessária, por sinal, apesar de honesta. Todo charme de Lupicínio é se destroçar no drama melancólico com beleza sublime em letras, arranjos e melodias. Tire os dois últimos, sobra dramaticidade crua. Com acompanhamento de piano, é quase como se cantasse à capela. A voz rouca arrastada de Arrigo, sombria como o cinema decadente. Tão coerente quanto chato.

Tentei imaginar qual a porcentagem do público que realmente chegaria no seu apartamentinho antigo ansioso por colocar o DVD pra rodar e ter mais alguns minutos de Arrigo cantando Lupicínio. Creio que poucos estariam sendo sinceros. Acho que Laerte, que antes do show posava para fotos uma fileira à minha frente, seria um dessa minoria. “Aposto que os vídeos no youtube não passam de 50 visualizações”, arrisquei. Coloco abaixo minha mais merecida derrota. Merecida primeiro porque Arrigo foi quem me mostrou essa lindeza de letra e depois porque, apesar de não conseguir ouvir a faixa até o fim, reconheço que seja uma versão até interessante.

0 comentários: